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Custo limita avanço de cobertura de seguro para produtor rural

Corte em programa do governo federal deve elevar o custo para os agricultores.

O seguro rural, instrumento que garante a cobertura de perdas decorrentes de fenômenos climáticos e adversos que afetam as lavouras, passa por um momento delicado. O custo quase dobrou em 2023 devido ao volume de indenizações de 2022. O segmento terá que lidar também com uma queda na oferta de recursos. A dotação orçamentária do Programa de Seguro Rural (PSR), destinado à subvenção aos prêmios de seguro, bancado pelo governo federal, teve um corte de R$ 17 milhões neste ano, para R$ 947,5 milhões.

A medida deve elevar o custo do seguro para agricultores, uma vez que o PSR subsidia parte do valor pago pelo produtor na contratação do produto. Sem a subvenção – que pode chegar a mais de 40% – ou com um percentual menor de incentivo, ele terá de arcar com a despesa adicional, o que, segundo especialistas, pode levar um grande número de produtores a deixar desprotegidas suas safras no ciclo 2023/24.

O presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Joaquim Neto, observa que as contratações do seguro rural são influenciadas pelos programas do governo. Embora a arrecadação dessa modalidade tenha aumentado no ano passado, a área segurada tem mostrado reduções anuais preocupantes, diz. Em 2020, eram 13,5 milhões de hectares cobertos, número que caiu para 6,2 milhões de ha (menos da metade) em 2023. “Essa queda anda junto com as reduções nos subsídios pagos pelo governo federal, que nos últimos dois anos não alcançaram a casa de R$ 1 bilhão. Os dados mostram a importância dos programas para a ampliação do seguro rural no Brasil”, afirma o executivo.

Na avaliação do diretor técnico da Sompo, Felipe Prado Ribeiro, os programas de subvenção incentivam a adesão do produtor. “Além disso, a maior frequência na incidência de fenômenos climáticos severos fez aumentar a percepção do agricultor, sobretudo do pequeno e médio, de que a contratação do seguro rural é um importante instrumento para a gestão de riscos”, diz. Em 2023, a sinistralidade na carteira de seguro agrícola da Sompo foi de 46%; os prêmios totalizaram R$ 82,8 milhões. No segmento de benfeitorias e penhor rural – seguro para máquinas e equipamentos -, os prêmios foram de R$ 362,3 milhões.

Além de ampliar e facilitar o acesso do produtor ao seguro rural, os programas de subvenção são indutores de produtividade no campo, avalia o diretor executivo de negócios corporativos da Allianz Seguros, Luciano Calheiro. “Afora o fato de poder adquirir uma apólice a custo mais acessível, [a subvenção] favorece a produção, já que o agricultor pode adquirir melhores insumos”, diz ele.

Apesar das dificuldades do ano passado, ainda sob efeito dos prejuízos da quebra da safra em 2022, Calheiro diz que a Allianz faturou cerca de R$ 300 milhões em 2023 somente com seguro rural, um crescimento de 30,7% na comparação com o período anterior. No ano, afirma o executivo, o setor como um todo cresceu apenas 3,8%.

A Mapfre foi outra empresa que superou o cenário de crise. Teve crescimento de 9% em prêmios emitidos na carteira agrícola, somando R$ 1,25 bilhão em 2023. Mesmo com o bom desempenho, o head comercial de seguro agro da companhia, Afonso Arinos, observa que o produto rural de modo geral sofreu uma desaceleração. “O mercado como um todo emitiu R$ 10 bilhões em prêmios no ano passado, considerando seguro agrícola e patrimonial. Se for comparado com 2022, houve queda de 3%.”

O dado positivo no ano, apontado por Arinos, é que houve uma redução no volume de indenizações na comparação com a safra de 2021/2022. “A crise hídrica na região Sul foi catastrófica para o seguro rural, o que fez, inclusive, com que muitas seguradoras deixassem o mercado de seguro agrícola”, afirma o executivo. Por isso, ele defende os programas de subvenção. “A subvenção ao seguro rural não é um mecanismo adotado só do Brasil, é mundial. Os Estados Unidos e a Espanha, por exemplo, subvencionam mais de 80% do prêmio do seguro agrícola, fazendo com que a sua penetração alcance mais de 80% das áreas agriculturáveis”, afirma.

A diretora de negócios da Wiz Corporate, Talita Ferrari, corrobora o ponto de vista de que instrumentos como o PSR têm papel primordial no estímulo ao seguro rural. Ela observa, porém, que apesar do progresso notável nos últimos anos, a penetração do seguro rural no Brasil ainda é baixa. “Isso sugere que há um grande potencial de crescimento desse mercado nos próximos anos. Contudo, para que ele seja plenamente aproveitado, é necessário superar alguns obstáculos, como a falta de informações confiáveis sobre riscos climáticos e a necessidade de aperfeiçoamento das políticas públicas de apoio ao setor”, finaliza.

Leia a notícia original em: Valor

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